O caminho iniciático nos tempos modernos
Em tempos mais antigos quando um estudante desejava trilhar os caminhos dos mistérios da vida e da natureza ele deveria, antes de tudo, provar que tinha o preparo e a vontade suficiente para adentrar em tais estudos. Várias provas eram impostas pelo candidato que deveria obter sucesso absoluto em todas elas para ter a chance de ser instruído nos mistérios.
Muitas vezes obter sucesso nestas provas significava sobreviver a um determinado desafio mortal. Talvez esses testes de dignidade e valor pareçam um pouco extremas aos nossos olhos mas também nos fazem refletir sobre a seriedade e zelo com que os antigos professores guardavam os mistérios. Os candidatos aprovados passavam pela cerimônia de iniciação que confirmava sua nova condição. O estudante, agora iniciado, se colocava sob a tutela de um mestre responsável por transmitir as instruções teóricas e práticas que conduziriam o neófito a tornar-se um verdadeiro adepto. Como iniciado o estudante deveria colocar-se sob vários votos necessários ao seu processo de estudo e desenvolvimento. Dentre estes o mais comum era o voto de sigilo que determinava que o estudante não poderia revelar qualquer informação ou detalhe de seu processo de iniciação ou de seus estudos. Assim era o estudo esotérico em tempos passados.
Mas as areias do tempo escorrem rapidamente e todos os sistemas devem adaptar-se constantemente às necessidades e ao paradigma dos novos tempos. Em linhas gerais o processo de iniciação, admissão nas escolas de mistérios e treinamento com um mestre adepto permaneceram os mesmos com o passar dos séculos mas certamente as formas concretas da aplicação desta estrutura básica variou bastante em cada fase cultural da humanidade. Em tempos remotos antigos círculos de pedras deram lugar aos magníficos templos sagrados. Com a vinda de novos sacerdotes vieram os monastérios e os templos suntuosos foram substituídos pelos salões guardados em castelos fortificados. O fanatismo aliado ao poder forçou os adeptos a guardarem seus mistérios em lojas ocultas sob símbolos e sinais secretos. Novos tempos trouxeram uma nova abertura das escolas de mistérios e a luz adentrou novamente ao templo. O eco desta luz renovadora ainda é sentido em nossos dias quando vemos os antigos véus se rasgando e os antigos segredos sendo publicados em livros comuns entregues a todos sem qualquer distinção.
Entrando em uma boa livraria podemos encontrar muitos textos que no passado levaram muitas vidas dos que tentaram conquistá-los e falharam. No entanto eles estão ali diante dos nossos olhos, redigidos em nossa língua, sem guardiões, sem cifras, totalmente desnudos e abertos a todos os que se prestem ao trabalho do simples folhear de um livro. Mas então os antigos segredos foram revelados? As provas de valor já não mais existem? As escolas de mistérios sucumbiram e o caminho do adeptado morreu? Não. Os mistérios são como sempre foram mas manifestam-se hoje sob um novo paradigma.
Os antigos templos serviram ao seu propósito em uma época específica da humanidade. Hoje temos maturidade e autonomia suficientes para contar com nosso próprio discernimento, com nosso próprio esforço, com nosso próprio impeto para buscar as informações necessárias e experimentá-las em nosso dia-a-dia. Não há mais a necessidade da reclusão e da devoção de toda uma vida para o estudo e desvelar das leis da vida e da natureza. O estudante moderno utiliza sua vida prática, a convivência com a família, as situações ocorridas no ambiente de trabalho, a interação com seu círculo de amizades e todo o mundo que o cerca como laboratório para a pesquisa das leis e princípios ocultos. Afinal, a divindade se manifesta em sua criação e, sendo assim, os segredos da vida e da natureza se encontram justamente em nossa própria vida e na natureza que nos cerca. Nenhum outro templo que não o próprio homem é necessário para se trilhar o caminho do adeptado. É certo que o trabalho em grupo, com outros filósofos herméticos, é prazeroso e produtivo mas o processo de descoberta e desenvolvimento é uma trilha particular.
As antigas provas inciáticas como relatadas nos livros históricos também não mais se aplicam. Mas elas ainda existem. Mesmo hoje com os antigos conhecimentos disponíveis a todos as provas de valor e determinação ainda se verificam mas de uma forma muito mais sutil. Não existem mais testes mortais ou tarefas aterrorizantes. Mas o bom e velho labirinto dos antigos mistérios gregos está tão vivo quanto nos tempos de Dédalo. Este é o labirinto das teorias e é certamente a prova mais difícil que o neófito moderno deve enfrentar. É bem certo que, ao entrarmos em uma boa livraria em nossos dias, encontraremos muitos dos antigos mistérios ali disponíveis. Mas como discernir qual é o autor confiável ou qual texto possui legitimidade filosófica ante tantos títulos e volumes? Como encontrar o fio que nos guiará por dentro deste labirinto? Esta é a grande prova, meu caro neófito! Milhares de volumes atraentes e fascinantes o aguardam. Grandes autoridades em todas as áreas do conhecimento humano chamam sua atenção com palavras inspiradoras guardadas em tomos magníficos. E o que é melhor: a preços muito acessíveis! Mananciais de sabedoria que só demonstram o sabor amargo de seus frutos muito tarde, quando já nos lançamos intrépidos aos meandros tortuosos de suas palavras e nos vemos totalmente perdidos dentre tantos conceitos contraditórios, tantas informações conflitantes e tantos autores especialistas que não podem concordar nem mesmo nos assuntos mais fundamentais. Felizes os que encontram o fio que os guiará por este tenebroso labirinto intelectual...
Vejo muitos de meus companheiros filósofos, emaranhados entre as teias de seus próprios conceitos, bradarem com coragem e orgulho a solução final para este enigma: “Queimem todos os livros!”, ”Livrem-se das teorias!”, ”Apenas a prática nos salvará!”. Sim, os que já se perderam no labirinto das teorias aprenderam a temê-las. Mas certamente queimar o objeto de sua manifestação, os livros, em nada adiantará pois se eles contém as teorias que aprisionam são também portadores do mapa que guiará por caminhos seguros os que se perderam. Os que queimam os mapas jamais encontrarão terra firme. Os que não se lançam aos escuros túneis deste labirinto jamais conquistarão a luz. Não que isso não seja possível mas sinceramente não acredito que qualquer neófito em nossos tempos, ou mesmo dos mais antigos, tenha o valor suficiente para guiar-se por si mesmo na senda do adeptado sem balizar-se pelas pegadas dos antigos professores. Para os companheiros de jornada que aceitam o desafio de lançar-se a esta prova iniciática podemos citar as palavras do antigo hierofante que disse: “Não deixeis de procurar noite e dia até que tenhas encontrado o Tesouro da Luz!”. Além disso devo dizer que as provas iniciáticas em nossos dias não se resumem apenas em encontrar o caminho seguro através do labirinto. Muitos outros perigos espreitam o que busca o adeptado. Observe com mais profundidade seus campos interiores e você poderá provar uma pequena amostra do que me refiro. Mas tendo encontrado o fio condutor os outros desafios se apresentam como processos naturais da jornada.
Se as provas iniciáticas ainda existem então também devem existir os mestres que receberão o neófito que provou seu valor. “Como encontrá-lo?”. “Como saber se ele é realmente uma pessoa preparada para me guiar pelo caminho?”. Este é realmente um grande problema quando buscamos um mestre ou um tutor baseando-nos nos sistemas esotéricos antigos. Nesses vários anos, dentre os vários filósofos que conheci, muito raros foram os com conhecimento, experiência e caráter suficientes para ocupar a função de mestres de mistérios como faziam os antigos adeptos. Confesso que eu mesmo já dediquei muito tempo buscando este tão aguardado tutor. Mas tais mestres não mais existem na forma como os buscamos. O homem alcançou um grau de maturidade e desenvolvimento intelectual ao longo dos últimos séculos que o capacitaram a desenvolver seus estudos da vida e da natureza de uma forma mais individual. Além disso nós somos muito indolentes e irreverentes para nos colocar sob o voto de obediência irrestrita exigida pelos antigos tutores. Assim a relação mestre-discípulo deve ser buscada pelo estudante atual em uma forma mais condizente com o seu paradigma. E temos, hoje, um grande privilégio que os estudantes dos antigos tempos não tiveram: estudar com os mestres mais famosos da história sem abrir mão de nossa vida cotidiana. Como? Através de seus livros.
Os sistemas filosóficos antigos eram baseados na transmissão oral. Então porque tantos adeptos dedicaram tanto tempo e esforço, por vezes arriscando suas próprias vidas, para redigir textos que guardassem seus conhecimentos para as futuras gerações? Afinal, bastaria que eles ensinassem de forma devida e seus discípulos se encarregariam da propagação do conhecimento pelo mesmo sistema oral. Mas os livros estão ai. Inúmeros volumes de conhecimentos inestimáveis acessíveis a todos. Pois esta foi a forma encontrada pelos adeptos para continuar ensinando seus discípulos mesmo após a sua morte. Por isso tais textos foram escritos pois como filósofos que desvendaram as leis da vida e da natureza os adeptos de todos os tempos concluíram naturalmente que toda forma de conhecimento tende a se pulverizar e se perder sob as areias do tempo. Por mais preparados que estejam seus sucessores o processo natural de entropia do mundo em que vivemos tende a corroer e degenerar todo e qualquer corpo de conhecimentos que ensine ao homem as formas de transcender o sistema de realidade como o conhecemos. Não vou entrar em detalhes mais profundos sobre este assunto neste momento mas devo recomendar a observação e o estudo dos processos de despertar da consciência e da resistência oferecida a eles pela manifestação personificada da raíz da inconsciência humana relatados pelos antigos textos gnósticos como a opressão de Ialdabaoth ou do Demiurgo sobre Sophia ou as Gotas de Luz. Este processo adormecedor inerente ao próprio propósito disto que chamamos existência material atua como uma grande névoa negra que obscurece toda fonte de luz lançada ao mundo da manifestação com o propósito de guiar a humanidade ao seu despertar. E é esta névoa negra que cedo ou tarde envolve a toda linhagem de transmissão de sabedoria esotérica corrompendo-a e obscurecendo-a. Deste processo surgiu o movimento investigativo chamado “ocultismo” por dedicar-se a extrair a essência do conhecimento transmitido pelos antigos adeptos mas que foi ocultado pela sombra da inconsciência ou mesmo pela perda das chaves de decodificação deste conhecimento. Por não conter em si o agente deturpador o texto escrito foi adotado pelos adeptos como tentativa de tornar suas lições mais resistentes a este ocultamento. Mas é certo que a codificação também se fez necessária já que estes textos, lançados à própria sorte ao longo da história dos homens, deveriam revelar-se em sua verdadeira forma apenas aos olhos de verdadeiros iniciados. E aqui temos mais uma prova para o iniciado moderno. Superá-la depende tanto de nós quanto de nosso Ser Interior.
Mesmo estando sob os mais obscuros códigos os textos deixados pelos antigos adeptos transmitem muito ensinamento útil para os neófitos que ainda percorrem os níveis mais fundamentais da filosofia oculta. E, atendo-se às instruções e lições contidas nestes textos, o neófito coloca-se diante do ensinamento do próprio mestre que o escreveu. E é desta forma que se estabelece a relação mestre-discípulo entre os estudantes dos mistérios em nossos dias. Nossos mestres nos ensinam através dos livros e cabe a nós respeitarmos esta relação e dedicar devido respeito e dedicação ao estudo e a prática do que estes textos contém.
Como já foi dito o primeiro e maior teste é encontrar um caminho seguro pelo labirinto das teorias e no próprio veículo destas é que está o mapa para superar tal tarefa. Encontrando este mapa encontramos nosso mestre. O processo é simultâneo afinal os textos que se mostram os mais fiéis aos propósitos de nossa busca e nosso temperamento nos guiarão e nos instruirão. Identificar estes textos é algo que não cabe apenas a nós mas também a nossa essência divina. Para isso ela deve ser exercitada e trabalhada para que se converta em ferramenta útil em nosso caminho. Nossa relação com nossa essência divina é fundamental para percorrer o labirinto pois ela será nossa luz. Neste e em outros textos busco apontar caminhos e pontos possíveis para a referência de todo neófito que percorre o caminho iniciático mas é a luz que emana dele próprio que demonstrará se este caminho é adequado ou não a ele. A luz interior que resplandece no coração de cada ser humano é o seu verdadeiro tutor, seu Mestre Secreto, e a ele cabe guiar este magnífico processo de transformação e edificação material, mental e espiritual que é a vida. Descobrir o Mestre Secreto e com ele estabelecer contato é a grande meta da primeira etapa da jornada de todo estudante que trilha o caminho do adeptado. Quando este contato for estabelecido e quando a relação entre você e seu Mestre Secreto for estabelecida então você poderá trilhar o caminho por si mesmo e não dependerá mais das palavras deixadas pelos antigos adeptos pois você mesmo já será um adepto e poderá ver claramente o caminho que deverá percorrer. Mas toda grande caminhada começa com alguns pequenos passos e negligenciar esses passos e condenar toda empreitada ao fracasso. Portanto seja sempre frio em seu julgamento e jamais coloque as crenças acima dos fatos. Busque observar a realidade como ela é sem mentir para si mesmo. Assim você poderá percorrer os passos fundamentais com segurança até que o verdadeiro mestre se apresente e lhe aponte caminhos novos.
L. L. L. L.
Pan Veritrax

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