Auto-conhecimento
Dizem que a vida é a melhor escola. Mas então eu pergunto: porque as pessoas vivem décadas e conhecem tão pouco sobre a própria vida e a natureza que as cerca? Creio que a idéia de que a vida seja uma grande escola contém, em si, uma verdade mas que não é compreendida pela grande maioria das pessoas.
O ser humano enquanto essência divina adentra a isso que chamamos mundo material e a vida como a conhecemos com um único e simples propósito: conhecimento. Através do homem a divindade da qual ele emanou pode vir a conhecer-se e este é o processo que sustenta o sistema no qual a vida humana se insere. O problema é que o conhecimento não surge de forma passiva mas depende de uma ação de observação e investigação. Para adquirir o conhecimento de algo há que se lançar ao seu estudo. De certa forma o ser humano é compelido naturalmente à este processo por sua própria natureza e propósito. O problema é que o impulso investigativo, assim como o impulso criativo herdado pelo homem da divindade que manifesta, tende a se manifestar somente a partir dele para a natureza que o cerca. O ser humano investiga, interage e altera a natureza ao seu redor desde os tempos mais remotos e podemos dizer através desta observação que esta é para ele uma tenência natural. Mas a essência divina existente no interior de cada ser humano e que lhe confere vida e inteligência precisa conhecer a si mesma e sua própria condição antes dos fenômenos naturais que a cercam. O processo de conhecimento deveria ser, antes de tudo, um processo de auto-conhecimento pois como pode o homem conhecer qualquer elemento que o cerca se desconhece a si mesmo? Como pode ele aplicar um instrumento para a investigação de algo se desconhece completamente a origem, a constituição, as capacidades, as funções e as aplicações de tal instrumento? Como pode o homem estar mais preocupado com o que se passa fora do que com o que se passa dentro dele mesmo? A vida é uma grande professora mas o ser humano é um péssimo aluno.
Se queremos realmente aprender alguma coisa sobre a vida devemos começar o quanto antes a estudar isso que é vida. E a melhor maneira de fazê-lo é tomar como laboratório a única forma de expressão de vida que temos contato direto: nós mesmos. Antes de mais nada devemos conhecer a nós mesmos. Saber apreciar o som de nossa voz, a nossa forma física, nossa personalidade e os elementos mais básicos que nos caracterizam ante os outros indivíduos. Familiarizados com nossos aspectos mais básicos devemos conhecer nosso universo interior, devemos explorá-lo, observá-lo e saber como ele se organiza. Saber o que pensamos e o que sentimos é um passo fundamental para o auto-conhecimento. A partir deste reconhecimento básico podemos nos lançar a uma investigação dos elementos mais profundos que carregamos dentro de nós mesmos. Só depois de adquirirmos algum conhecimento de nosso instrumento de manifestação neste mundo físico, isto é, de nosso corpo e de nossa psiquê, é que poderemos realizar qualquer investigação sobre a natureza exterior que produza alguma conclusão mais concreta. Afinal qualquer investigação do mundo exterior estará profundamente relacionada aos processos do mundo interior. Não há como separar de forma concreta o que é observado dos fatores que influem sobre o observador pois estes fatores são determinantes para todo o processo de observação.
Mas o universo interior é tão vasto quanto o que nos cerca. Lançar-se temerariamente às profundezas de nossa mente buscando compreendê-la talvez não seja a abordagem mais inteligente. Não que ela não ofereça seus frutos. A questão é que nós somos imediatistas e normalmente não possuímos a virtude da paciência e do labor suficientemente desenvolvidas para empreender um processo de exploração com o devido método e lentidão capazes de gerar uma compreensão progressiva e completa deste novo mundo que estamos investigando. Normalmente esperamos algum resultado concreto já na primeira observação que fazemos de nossa mente e se estes resultados não se apresentam descemos mais fundo nas escadarias de nossa psiquê buscando o entendimento imediato de todo este universo que levou muitos e muitos anos para ser construído. E muita coisa se esconde nesses ambientes inexplorados que realmente não estamos preparados ou dispostos a ver. Os piores horrores que podemos encontrar não estão fora mas sim dentro de nós mesmo ocultos por camadas e camadas de auto-engano e de uma espécie de amnésia seletiva que nos protege das terríveis verdades sobre o que verdadeiramente somos. Basta lembrar que todos nós carregamos o potencial de tudo o que existe em nossa sociedade. Claro que nosso própria psiquê possui mecanismos que nos impedem de contatarmos profundamente nossos traumas e características mais obscuras tornando o cenário como o estamos pintando algo improvável. Mas, de qualquer forma, melhor seguirmos caminhos mais responsáveis e inteligentes nestas jornadas rumo ao nosso universo interior pois qualquer excesso constituiria um grande atraso em todo o nosso estudo e, ao meu ver, não temos tempo a perder com obstáculos desnecessários já que podemos seguir por caminhos seguros e mais produtivos.
Em um primeiro momento devemos identificar nossos traços fortes e nossos traços mais frágeis. Obviamente os traços fortes nos apontarão o ponto de partida para qualquer empreitada pois eles demonstram nossas capacidades mais desenvolvidas. Mas jamais devemos negligenciar nossos traços mais frágeis. Devemos, sim, trabalhar para desenvolver estes aspectos mas devemos também evitar qualquer visão romântica acerca de nós mesmos e contar com a interferência destes traços frágeis até que tenhamos trabalhado sobre eles.
Explore, observe, investigue a si mesmo. Conheça seu universo interior. Observe todas as características que povoam todos os mundos de sua psiquê e avalie as interferências de cada uma delas na maneira com que você interage com o mundo que o cerca. Assim você estará começando a conhecer o principal instrumento para a investigação da vida e da natureza, o templo onde se processam todas as iniciações em nosso tempo e também o campo principal de contato com todas as forças ocultas da natureza: o seu universo interior. Conhecendo-o você poderá conhecer a si mesmo e, a partir daí, aos outros seres humanos e o mundo que o cerca. Conhecer o que está ao seu redor é fácil. Mas conhecer o que se passa dentro de você é um grande desafio.
L. L. L. L.
Pan Veritrax

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