A árvore da vida
Conta a tradição que no Jardim das Delícias criado por Deus para abrigar o primeiro homem e a primeira mulher haviam duas árvores: a Árvore do Conhecimento e a Árvore da Vida. Da primeira provou o casal primordial e foi expulso do paraíso. Muito além do pobre conceito de pecado original essa história nos aponta questões mais profundas.
A árvore da qual provou Adão chamava-se Árvore do Conhecimento. Poderíamos dizer, então, que Adão provou da Árvore da Gnosis. Ainda mais se observarmos as conseqüências deste ato. Quando Adão come do fruto de tal árvore percebe que estava nu, isto é, seus olhos se abrem e ele toma consciência de sua condição atual. Adão, como devemos lembrar, não se refere propriamente ao primeiro homem mas é o símbolo de toda a humanidade em um período ancestral.
Com a abertura dos olhos tem, o homem adâmico, que arcar com certas conseqüências decorrentes de tal transformação de estado consciencial e físico. Assim Deus proclama o que algumas correntes ditas cristãs consideram a punição pelo pecado original mas que na verdade constitui mera constatação das conseqüências deste novo estado adquirido pela humanidade. Não é Deus quem pune Adão e Eva por seu ato.
Trata-se, neste ponto, de um alerta sobre a nova condição que eles experimentariam como simples conseqüência de seu ato. Assim Deus expulsa o casal do Jardim das Delícias já que eles “são agora como os deuses” e “para que não experimentem da Árvore da Vida”. Para impedir o retorno do homem adâmico para o seu paraíso põe Deus um anjo armado com uma espada flamejante na porta deste jardim.
Todos estes símbolos saltam aos olhos dos iniciados que bem sabem o trabalho que devem empreender para vencer este anjo e retornar ao seu estado primordial. Toda esta história remete a um profundo simbolismo interior onde o Jardim do Édem não é um local físico mas sim um estado de consciência que o homem abandonou quando abriu seus olhos. Retornar para este estado é o propósito de toda a busca do ser humano pois só então ele terá a felicidade completa que tanto almeja.
Mas para empreender este retorno o homem terá que decifrar os símbolos por trás da tradição que assinalam o caminho para, quando de posse de sua própria espada flamejante, derrotar o anjo guardião do jardim e retornar a seu estado primordial.
A Árvore da Vida é o símbolo de todos os conhecimentos e de todo o potencial do homem em seu estado legítimo e original. E é justamente sobre este símbolo dos antigos mistérios esquecidos por nossa humanidade que se estrutura todo o estudo e a prática da cabala.
O texto mais antigo que versa diretamente sobre a cabala, o Livro da Criação, apresenta a Árvore da Vida em seus elementos essenciais. Estes elementos foram organizados em um diagrama sintético pelos cabalistas medievais produzindo um símbolo que resume todo o conhecimento da cabala.
Este é um diagrama perfeito das relações entre as trinta e duas ferramentas essenciais da cabala. E, assim como as próprias ferramentas fundamentais, trata-se de um diagrama bastante simples composto por dez círculos representando os dez números unidos por vinte e duas linhas correspondentes às vinte e duas letras do alfabeto hebraico.
Cada esfera, chamada em hebraico de Sefirá e no plural como Sefirot, representa uma emanação divina, uma manifestação específica da divindade. Cada caminho, relacionado a cada letra, representa um estado interior que marca a transição entre uma esfera e outra.
Todo o diagrama apresenta o significado e o papel de cada letra e de cada número em seu simbolismo mais profundo. A essência e a natureza de cada esfera e de cada ligação são obtidas pela reflexão e pela meditação no lugar que cada um destes elementos ocupa no diagrama da Árvore da Vida e quais são suas relações com os outros elementos.
Além disso cada número e cada letra do alfabeto hebraico carregam em si um símbolo ou uma idéia chave. Isso também acontece com cada esfera e caminho representando um simbolismo particular. Os simbolismos associados a cada esfera estarão diretamente ligados ao simbolismo do número que as representa podendo, sob certo ponto de vista, serem considerados a mesma coisa.
Isso também ocorre com as letras. Seu simbolismo será, de certa forma, o simbolismo do caminho associado a ela. Dizemos “de certa forma” porque cada um destes elementos se confunde de modo geral mas possuem em si uma natureza, uma essência, um papel distinto. Mas esse tipo de percepção deverá ser obtida de forma direta através da meditação sobre estes elementos pelo cabalista que já tenha dominado os princípios fundamentais do sistema cabalístico.
L. L. L. L.
Pan Veritrax

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