Uma breve história da cabala
Tendo uma visão geral da cabala, de suas ferramentas básicas, de seus propósitos e áreas de estudo é preciso observar alguns pontos históricos para ampliar um pouco mais o entendimento deste tema antes de se explorar as questões mais diretas e práticas.
A cabala nasceu como uma parte dos estudos dos sacerdotes judeus. Poderíamos dizer que a cabala é o ensinamento esotérico do judaísmo. A palavra esotérico designa algo que está restrito a um pequeno grupo, que é secreto, contrapondo-se à palavra exotérico que designa o que está aberto a todos. A cabala constitui um conhecimento secreto entre os antigos judeus.
Há várias versões para as origens da cabala. A versão mais tradicional diz que ela foi entregue a Enoque diretamente pelos anjos e este transmitiu o conhecimento a seus descendentes.
Na breve citação de Enoque que encontramos no Antigo Testamento bíblico vemos que este personagem foi transportado para junto de Deus e dos anjos. A tradição antiga diz que Enoque, ao ser transportado para junto dos anjos, aprendeu com estes os seus mistérios e recebeu a missão de retornar à terra para ensina-los aos homens. Enoque assim o fez e transmitiu esses mistérios dando origem aos primeiros fundamentos da cabala.
Alguns atribuem a origem destes ensinamentos a Abraão que teria compreendido os mistérios de Deus e registrado seus fundamentos no Livro da Criação.
Seja qual for a versão para a origem da cabala todos os cabalistas reconhecem o valor do personagem Enoque e dos textos atribuídos a ele e também o simbolismo cabalístico que envolve Abraão nos textos bíblicos que o citam. Também o Livro da Criação é admirado por todos os cabalistas por apresentar os fundamentos da cabala.
Esta tradição foi transmitida de geração a geração entre o povo hebreu até alcançar a figura de Moisés. A este personagem é atribuída a composição dos primeiros textos sagrados do povo hebreu, a Torá, que se constituiria na primeira codificação do conhecimento cabalístico. Os textos bíblicos de modo geral, e não somente os livros de Moisés, oferecem informações e conhecimentos fantásticos quando estudados utilizando-se das ferramentas cabalísticas.
Após a codificação o sistema cabalístico foi transmitido aos vários patriarcas hebreus ao longo da história, sempre de forma oral, até que no segundo século foram registrados de forma escrita pelo rabino Shimon ben Iohai no Livro dos Esplendores.
Na Idade Média inicia-se um processo lento e progressivo de abertura da cabala para estudantes fora do rabinato, a classe sacerdotal judaica, e mesmo para fora do judaísmo.
Com esta abertura as técnicas e os conhecimentos cabalísticos deixam, pouco a pouco, o paradigma judaico e assumem um caráter mais universal, sendo estudados e ampliados por vários filósofos cristãos. Nasce, assim, a forma de Cabala Prática mais moderna chamada normalmente de Magia. É neste movimento de abertura, também, que é codificado o diagrama da Árvore da Vida.
A cabala difundida na Idade Média por várias seitas cabalistas judaicas e por alguns núcleos de estudo fora do judaísmo é profundamente trabalhada, ampliada e explicada pelo famoso mago francês Eliphas Lévi. Lévi, um cristão fervoroso e profundo admirador da tradição hebraica, extrai a cabala do paradigma judaico e estuda-a profundamente apresentando-a em sua essência, de forma natural e simples, mas demonstrando seu potencial filosófico profundo e amplo. A tendência de universalização da cabala iniciada na Idade Média encontra seu auge em Lévi que demonstra sua aplicação e congregação com ensinamentos de várias outras fontes, não somente cristãs tradicionais, mas também gnósticas, orientais e de mitologias de vários povos. Seus estudos estabelecem um verdadeiro marco no estudo da magia e da cabala e inspiram uma série de estudantes, grupos e instituições dedicadas a estes temas.
Podemos dizer que surge, neste momento, duas grandes vertentes para o estudo da cabala: a Cabala Judaica e a Cabala Esotérica. A primeira mantém o estudo cabalístico dentro do paradigma judaico e da tradição do povo hebreu como uma das três partes desta religião. A segunda utiliza a cabala em sua essência e de forma universal dentro de parâmetros mais amplos e mais adequados ao paradigma moderno.
As instituições inspiradas pelas obras de Eliphas Lévi surgidas a partir do século dezenove ampliaram imensamente o estudo da cabala dando origem a um grande número de tratados sobre o tema e formando as bases para os sistemas de várias sociedades e ordens secretas que desenvolvem seus trabalhos até nossos dias.
Essa grande proliferação de trabalhos e estudos sobre a cabala tornou o tema acessível a todos e, aproveitando esta moda, vemos em nossos dias uma série de trabalhos ditos cabalísticos com fins puramente comerciais.
Atualmente temos a nossa disposição muitos textos e estudos fascinantes sobre este tema tanto na vertente judaica quanto na vertente esotérica. Mas também temos uma grande proliferação de trabalhos de má informação ou mesmo de desinformação. E a moda esotérica que vivemos faz com que o acesso a determinadas ferramentas, como a cabala, seja feito de forma superficial e deturpada. Então tome muito cuidado com estas armadilhas dos tempos modernos.
Antigamente os grandes ensinamentos eram transmitidos apenas aos que estavam preparados. Uma série de provas eram impostas para testar o valor dos candidatos. Para o vulgo os mistérios estavam ocultos pelos grandes templos e pelos símbolos somente compreendidos pelos iniciados. Atualmente os símbolos foram desvelados, os mistérios foram entregues explicitamente e os grandes segredos estão abertos. Mas, mesmo assim, eles ainda continuam ocultos aos olhos do vulgo. Estão embaralhados e perdidos nas prateleiras das grandes livrarias escondidos por trás de títulos inúteis, fantasiosos e até mesmo perigosos. Os antigos abismos que os neófitos da antiguidade deviam cruzar para provar seu valor arriscando suas próprias vidas ainda precisam ser cruzados pelos neófitos atuais mas hoje eles se apresentam em forma de idéias interessantíssimas encadernadas nos mais atraentes volumes que visam apenas atrapalhar aos que buscam a iniciação. Todos esses obstáculos deverão ser ultrapassados por aqueles que realmente desejam encontrar o conhecimento verdadeiro.
L. L. L. L.
Pan Veritrax

Re: Uma breve história da cabala
Qual a sua opinião a respeito dos trabalhos cabalísticos com fins comerciais? Como um trabalho destes é realizado?
Re: Uma breve história da cabala
Olá.
A princípio não vejo mal algum em utilizar a cabala ou qualquer outro sistema esotérico comercialmente. Muitos dos cabalistas e magos do passado ofereceram seus préstimos como “consultores esotéricos”. Um cabalista legítimo, que tem a cabala como seu caminho espiritual, pode muito bem oferecer seus serviços em troca de alguma remuneração.
O problema surge com naqueles que não “vivem” a cabala, que não são cabalistas, e que tem a remuneração como fim último para a aplicação da cabala.
Há várias formas de se utilizar a cabala para fins comerciais já que ela é bem ampla. As formas mais comuns são através de trabalhos mágicos e de consultas numerológicas. Se adotarmos um sentido mais amplo uma consulta de tarô também pode ser considerada. A oferta de cursos, palestras, workshops e a venda de livros também pode ser considerada um uso comercial da cabala já que normalmente não é gratuita.
Mesmo que um consultor tenha a cabala apenas como “profissão” e não como via espiritual suas consultas podem apresentar certo resultado já que exigem algum estudo e imersão no tema. Mas nunca serão comparáveis às consultas feitas por um cabalista legítimo. Já os livros escritos e os cursos ministrados por alguém que não viva a cabala só representarão uma ilusão e uma perda de tempo para seus estudantes.
Em resumo, um adepto legítimo de cabala que aplique esse sistema intensamente em sua vida e faça dele sua via de desenvolvimento consciencial pode muito bem utilizar certas facetas desta via de forma comercial pois sabe como fazê-lo da melhor forma sendo fiel aos propósitos do próprio sistema. Já alguém que só enxergue na cabala uma profissão ou fonte de renda está seguindo pelo caminho do erro e levando muitos outros consigo.
Acho que isso também vale para a astrologia e para várias outras áreas do ocultismo que podem ser exploradas comercialmente.
L. L. L. L.
Pan Veritrax
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